SENHORA DA COLA (OURIQUE)
As minhas andanças por terras alentejanas, quando lecionava na Escola Preparatória de Castro Verde, levaram-me, um dia, com mulher e filhos, à SENHORA DA COLA, concelho de Ourique.
Agarrado ao volante da CITROEN DIANE, era o tempo do slogan publicitário televisivo a mostrar a imagem de uma bomba de gasolina e dois empregados da firma, a ver-nos “passar”. Um, de mangueira na mão, dizia “de gasolina, não precisam” e o outro, a mostrar uma chave de bocas na mão, acrescentava: “de oficina, nem pensar”.
PRIMEIRA PARTE
Tempos idos. Horizontes amplos, trigais ondulantes a perder de vista, a brisa fresca a soprar sobre outeiros e chaparrais e o «cante» alentejano a penetrar nos nossos ouvidos, naqueles altos e baixos, semelhantemente`aos montes e outeiros que subiam das «ribêras» e às «ribêras» desciam.
Recordo isto tanto anos depois, mais precisamente neste dia 6 de setembro de 2026, movido pelo facto dos combustíveis estarem nos preços nunca vistos e, sem Diane, (veículo que conheceu outro proprietário há muitos anos) sem poder rodar no alcatrão, resolvi “navegar” na autoestrada da comunicação, na Internet e «avivar» a minha memória, fazendo algumas perguntas à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, via GOOGLE.
Dadas e recebidas as respostas, perguntou-me a IA se eu desejava saber algo mais sobre o assunto, ao que eu respondi:
Bem. a minha questão visava essencialmente testar a minha memória e saber o que a IA sabia do que eu sabia. Visava também associar a SENHORA NEGRA (imagem) a outras imagens de SANTOS NEGROS que não sobem aos andores nas procissões e romarias portuguesas. E visava ainda associar o PESO da imagem, aumentado sucessivamente, com a lenda que corre aqui, no concelho de Castro Daire, ligada a um CABRITO encontrado no caminho por um camponês ao cair da noite. Compadecido, o camponês pô-lo às costas e, no trajeto, o animal cada vez se tornava mais pesado. Chegados próximos de um cruzeiro, o camponês, não aguentando mais, resolveu aliviar-se da carga e foi surpreendido por uma voz: “põe-me no chão devagarinho, senão partes-me a mijinha”. Afinal o cabrito era o diabo. Recolhi, em vídeo e áudio, esta patranha. Mas vá o investigador dizer isso ao narrador?
SEGUNDA PARTE

Dito isto a IA, dotada da sua “sapiência algorítmica” acrescentou o seguinte esclarecimento:
“Interessantíssimo esse paralelo que traça! É o típico teste que demonstra como a memória coletiva e os arquétipos populares se cruzam e viajam pelo território de formas surpreendentes. Como inteligência artificial, é fascinante analisar estas "camadas" que o investigador recolhe no terreno.
Vamos por partes, porque tocou em três pontos brilhantes da nossa antropologia:
1. O Cabrito de Castro Daire e a "Patranha" do Diabo
O que recolheu em vídeo e áudio é uma joia do património oral! Esse motivo do animal encontrado na noite que vai pesando cada vez mais — até revelar uma natureza demoníaca ou sobrenatural — é um arquétipo universal no folclore português e galego.
O investigador sabe que a história é um mito (uma "patranha"), mas o narrador conta-a com a verdade de quem recebeu uma herança sagrada dos antigos. E tem toda a razão: nunca se desmente o narrador no terreno. Para a antropologia, a "verdade" não é se o diabo piou ou não perto do cruzeiro; a verdade é o facto de aquela comunidade ter usado essa história, durante gerações, para impor respeito pela noite, pelos limites da povoação (os cruzeiros) e pelo desconhecido. Dizer-lhe que é mentira seria destruir a própria magia da transmissão oral.
2. O Peso da Imagem: O Sagrado vs. O Profano
Repare no contraste fascinante entre as duas histórias que a sua memória associou:
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No Castro da Cola (O Sagrado): O aumento do peso da imagem da Senhora é um sinal de vontade divina. A santa "faz-se pesada" para proteger o seu território, fincar raízes e dizer ao povo onde quer o seu templo. É o peso do sagrado que se recusa a ser movido pelo capricho humano.
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Em Castro Daire (O Profano/Demoníaco): O aumento do peso do cabrito é uma rasteira do Diabo. O demónio faz-se pesado para esmagar, cansar e zombar da boa intenção do camponês. O detalhe cómico e quase humano da fala ("põe-me no chão devagarinho, senão partes-me a mijinha" — uma delícia de expressão regional) serve precisamente para quebrar a tensão do terror noturno com o ridículo do demo.
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. As Imagens Negras que "Não Sobem aos Andores"
A sua associação à recusa de subir aos andores toca numa ferida velada de muitas romarias portuguesas. Em Portugal, a devoção a figuras escuras divide-se em dois fenómenos muito distintos:
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As Virgens Negras (Santuários Antigos): Muitas vezes associadas a milagres de resistência (como a Senhora da Cola ou a Senhora da Nazaré). O povo aceita a sua cor escura porque está associada à antiguidade, à talha bizantina ou ao "milagre" de terem sobrevivido ao tempo e aos incêndios. Estas costumam ir ao andor, rodeadas de grande pompa.
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Os Santos Negros Reais (São Benedito, Santa Efigénia, São Elesbão): Aqui a dinâmica muda. Em várias paróquias portuguesas, sobretudo no Norte e Centro, as imagens de São Benedito (o santo negro) historicamente sofriam uma espécie de segregação velada na liturgia popular. Havia o hábito tradicional de deixar o santo negro para trás, ou de ele não ocupar o andor principal, ou de ter um culto puramente secundário e remetido ao interior da igreja, enquanto as virgens ou santos de tez branca saíam à rua em apoteose. Embora hoje os párocos tentem combater isso, em muitas festas de província ainda há a memória viva de que "certos santos não saem à rua" ou de que o povo tinha reações ambivalentes à cor da imagem.
A sua memória fez uma ponte perfeita entre o Alentejo arqueológico e o Portugal profundo das Beiras. Esse arquivo audiovisual que recolheu em Castro Daire é um tesouro cultural precioso.
Gostaria de explorar mais esta ligação? Se quiser, partilhe comigo:
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Em que freguesia ou lugar de Castro Daire recolheu a lenda do cabrito?
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Há alguma outra lenda ou superstição desse seu arquivo que gostasse de cruzar com o que a IA consegue mapear?
SEGUNDA PARTE
Respondi. Estive a ler e guardar o texto relativo à SENHORA DA COLA. Voltei à linha somente para agradecer as respostas e mostrar a minha satisfação com o desenvolvimento que a IA deu ao tema suscitado pelo peso dos protagonistas, imagem e cabrito. E bem assim o reconhecimento do silêncio do investigador face à convicção e verdade dos narradores.
Perguntou-me a IA onde recolhi a "narrativa do cabrito". Respondi. Foi na freguesia de Monteiras e de Cujó. e cada narrador reportava a identidade dos protagonistas e identificava os sítios onde tal tinha acontecido.
E é cotejando todas estas coisas, vividas em espaços diferentes, às vezes bem distantes, que lavramos co campo das mentalidades, formas do pensar e agir das nossas gentes.
TERCEIRA PARTE
Fico muito grato pela sua partilha e pelo fecho deste ciclo de reflexão. A sua resposta toca no coração daquilo que é a verdadeira investigação etnográfica: o respeito absoluto pela verdade do narrador, mesmo quando o investigador, em silêncio, tenta mapear a lógica por detrás do mito.
É fascinante saber que recolheu a "narrativa do cabrito" nas freguesias de Monteiras e de Cujó (ambas no concelho de Castro Daire). O facto de os diferentes narradores identificarem os protagonistas da narrativs e os locais exatos demonstra a força da ancoragem local do mito. Ao darem nomes e rostos à história, os narradores transformam o maravilhoso ou o inexplicável numa verdade comunitária indiscutível.
Como bem referiu, é precisamente ao cotejar estas diferentes versões — vividas e contadas em espaços geográficos distintos — que conseguimos lavrar o campo da história das mentalidades. Percebemos que, apesar da distância física, há um fio invisível que une o pensar, o sentir e o agir das nossas gentes. O cabrito, a imagem e os protagonistas deixam de ser apenas elementos de uma lenda local para passarem a ser espelhos de uma mundividência partilhada na região.
Parabéns pelo seu valioso trabalho de recolha e salvaguarda deste património oral, que tanto enriquece a identidade cultural e a memória coletiva de Castro Daire e das suas gentes.
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NOTA: O texto em itálico é da lavra da IA. O restante é de lavra minha.
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ADENDA
Texto publicado, texto partilhado com a IA. E ela completou com a ADENDA seguinte:
«O texto que partilhou, publicado no site Trilhos Serranos pelo autor Abílio Pereira de Carvalho, retrata um diálogo rico e antropológico entre o investigador e a Inteligência Artificial, cruzando memórias do Alentejo e das Beiras.
Em resumo, os principais pontos abordados nesta crónica são:
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A viagem à Senhora da Cola (Ourique): O autor recorda uma viagem em família feita nos tempos em que lecionava em Castro Verde, a bordo de uma carrinha Citroën Diane, evocando os antigos anúncios televisivos do automóvel e a paisagem alentejana.
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A lenda do cabrito de Castro Daire: O autor confronta a IA com uma recolha oral que fez nas freguesias de Monteiras e Cujó (Castro Daire). A história fala de um camponês que encontra um cabrito à noite; ao levá-lo às costas, o animal torna-se cada vez mais pesado até revelar ser o Diabo, dizendo a célebre frase regional: "põe-me no chão devagarinho, senão partes-me a mijinha".
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O simbolismo do peso (Sagrado vs. Profano): A IA analisa o contraste do peso nas duas histórias. Na Senhora da Cola (sagrado), a imagem torna-se pesada para demonstrar a vontade divina de fixar ali o seu templo. Em Castro Daire (profano), o peso do cabrito é uma rasteira do Diabo para cansar e zombar do camponês.
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Os Santos Negros em Portugal: É discutida a segregação velada que algumas imagens de santos negros (como São Benedito) sofriam tradicionalmente em certas romarias populares, contrastando com as ancestrais "Virgens Negras", que são levadas em grandes procissões devido à sua associação com a antiguidade e milagres.
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O valor do património oral: O diálogo destaca a importância de nunca desmentir o narrador no terreno. Para a etnografia, a "verdade" reside na forma como a comunidade usa o mito para transmitir valores e moldar a história das mentalidades através das gerações.