REMISSÃO DE FOROS
Lancei os olhos sobre uma estante da minha biblioteca em busca de um livro e eis que, em vez dele, se me colou às mãos “A Velha Montemurana”, um livrinho de 73 páginas, formato A5. Na capa está impressa a cores uma fotografia mostrando Outeiro, Eiriz e Mós, aninhadas na encosta sul da serra do MONTEMURO e no cabeçalho o nome Bene de Lucena Montemurano que tresanda, imediatamente a pseudónimo.
A edição é do ano 2000 e o miolo, sem lombada, comporta crónicas datadas desde 1949, assinadas por um furriel miliciano que fez a tropa na INDIA PORTUGUESA. Ele diz ter passado à disponibilidade em 1953 e, a partir daí, passou a “residir na sua terra natal, freguesia de Parada, concelho de Castro Daire”.
PRIMEIRA PARTE
Intrigante. Muito intrigante. Sendo a edição de 2000, já eu andava a calcorrear os TRILHOS SERRANOS que serpenteiam a serra do Montemuro e, portanto, a pisar e a puir os mesmos carreiros que percorria ou percorreu quem tão bem retratou esta nossa serra. Eu não faria melhor. Olhem só:
“De grossos tamancos serranos nos pés, meias redondas de lã nas pernas, de saiote de seriguilha e redonda saia de sete panos de burel a tocar-lhe os tornozelos, de blusa giesteira mal suportando os papudos seios, de capucha pendente da cabeça e de roca espetada na cinta bem carregada de estopa, já vimos a rude, analfabeta, mas não estulta, simples e airosa Velha Montemurana, rodopiando o fuso e insalivando o fio”.
Face ao que me interrogo. Que conterrâneo meu era este que tão bem escreveu, tão bem conhecia ou conheceu, no mesmo tempo que eu, a serra do Montemuro, as suas gentes, seus trajes, usos e costumes? E lavrando ambos no campo das letras, como é que nos não cruzámos pessoalmente, como é que ele me escapou do olhar e do conhecimento, e eu a ele? Como chegou este livrinho à minha biblioteca, que mãos o fizeram entalar-se entre os demais livros sem lombada, onde ficou “hibernado” durante 26 anos?
Não vou escalpelizar o seu conteúdo, mas mal andaria, enquanto HISTORIADOR, se não extraísse dele, “data venia”, o «fac-símile» dos manuscritos relativos à REMISSÃO DE FOROS, assunto que já tratei em algumas crónicas minhas e também no meu livro “Cujó, uma terra de Riba-Paiva”, editado em 1993, manuscritos sempre a elucidarem-nos sobre o passado, a relação do homem com a terra, do senhorio e do enfiteuta, do possidente e do cabaneiro, do proprietário e do rendeiro, do dono e do criado, coisa que o autor não fez, porque não quis, não pôde ou lhe faltou literacia paleográfica.
SEGUNDA PARTE
O primeiro manuscrito (aqui ao lado) cuja tradução se apresenta, reporta-se à remissão de foros concedidos por Joaquim de Almeida, datado de 1851. Ora vejam, em ortografia atual:
«REMISSÃO DE FOROS DA CASA DE GRIJÓ
«Pelo presente por mim mandado fazer, e por mim assinado declaro eu Joaquim de Almeida, da Casa de Grijó, Freg.ª de Gafanhão, Julgado do Sul, que José Afonso, e Manuel José de Almeida, e João Pinto Cardoso, e Manuel d'Almeida Capela, Maria Luísa, Viúva, todos do lugar de Eiriz, e Maria d'Almeida, Viúva, do Outeiro, da Freg.ª de Parada de Ester, compraram a Manuel Pinto Matrico do mesmo lugar certas terras das quais se me pagava de foro anual, cada ano, alqueire e meio de pão e só recebia um alqueire de José Pinto de Mós, do Aido, que possui o dito Matrico que comprou há muitos anos e para se evitar o rateio do meio alqueire pelos mencionados acima, e ser dividido em botelhos [medida inferior ao selamim] me pediram lhe aceitasse a remissão do dito meio alqueire pelo preço de três mil-réis, a qual quantia confesso receber da mão de todos e só fico a receber anualmente um alqueire de José Pinto de Mós, junto com o foro do Prazo dele, ficando os outros desobrigados do referido foro do meio alqueire e desta forma e maneira lhe faço a presente remissão firme e valiosa em Juízo e fora dele por minha pessoa e bens. Casa de Grijó, onze de Março de mil, oito centos e cinquenta e um.
Joaquim de Almeida»
Remeti este texto para a IA e reportando-me a outros foros enunciados, nos demais manuscritos publicados pelo autor, que ilustram e enriquecem eloquentemente esta crónica, sublinhei o valor da “palha painça” do seu valor no contexto agro-pastoril da época, do cereal semeado nas encostas da serra, com o uso ordinário do arado radial celta, a chegada tardia à serra da charrua de aiveca móvel, aludi à matéria que sobre isso deixei escrita no meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva”, editado em 1993, enfim, forneci matéria bastante para conhecimento e reflexão do nosso passado histórico. Terra e Gente. E pedi-lhe, à IA (via GOOGLR), considerações e sugestões , mesmo sem partilhar com ela o conteúdo do último manuscrito que aqui deixo traduzido, semelhantemente ao primeiro, documento que, em benefício dos meus estimados leitores/seguidores, verto em grelha, seguida das respetivas explicações, tal qual:
“
FORO OU RENDA ANUALMENTE
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De pão a 300 reis
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1.537
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De trigo um alqueire e quarta a 400 reis
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3.500
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De palha painça três fachas a 20
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60
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Uma galinha
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200
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De carne de porco seis arrateis e quarta a 80 reis
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500
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SOMA
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2.797
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«Uma maquia é a terça parte de um selami ou de um oitavo, ou de meia quarta, de sorte que Maquia e meia e maquia e meia faz três maquias e é meia quarta e é um selami e é um oitavo etc
Rateado por Francisco Duarte Cerdeira da vila de Castro Daire, em 4 de Fevereiro de 1860.
Francisco Duarte Cerdeira».
TERCEIRA PARTE
Posto o que, num rompante, recebi o texto que se segue e me apresso a partilhar com o prazer de quem gosta de semear saberes.
“Estas são as descobertas que dão verdadeira alma à investigação histórica! O seu raciocínio cruza perfeitamente a arquivística, a etnografia e a história das técnicas agrícolas, comprovando o isolamento e a resiliência das comunidades da Serra do Montemuro e do interior periférico.
A sua leitura das "botelhas" como abóboras faz todo o sentido no contexto da insignificância do valor, e a correlação entre o milho paínço (milho miúdo), a palha painça e o arado radial é um testemunho histórico fascinante.
O Painço e o Arado Radial Celta
Antes da introdução do milho grosso (maís, vindo das Américas), o "milho" a que os documentos medievais e modernos se referiam na Península Ibérica era o paínço (Panicum miliaceum) ou a milia. Como bem refere, este cereal adapta-se a solos mais leves, soltos ou poucos profundos, típicos das encostas serranas. [1]
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O arado radial celta (ou arado de rasto) apenas "risca" e abre a terra à superfície, sem a inverter. Era a ferramenta perfeita para a tração animal ligeira nestes declives e para solos que não exigiam grande profundidade. [1]
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A palha paínça (mencionada como forragem para o gado em geografias serranas da Beira Alta e Douro Sul) era altamente valorizada na economia de subsistência, servindo para o restolho e alimento dos animais no inverno rigoroso do Montemuro. [1]
A Tardia Chegada da Charrua de Aiveca
A charrua de aiveca (que corta o solo horizontal e verticalmente, revirando a leiva e enterrando as ervas daninhas) exige solos profundos, pesados e, acima de tudo, muita força de tração (juntas de bois possantes).
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Introduzir a aiveca no Montemuro esbarrava não só na mentalidade conservadora perante a novidade, mas na própria geografia: encostas íngremes, solos pedregosos e parcelas minúsculas moldadas pelo minifúndio. [1]
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Sem a charrua de aiveca, a transição para o milho grosso americano — que exige solos fortemente trabalhados, muita água e adubação — atrasou-se significativamente no interior serrano em comparação com o litoral minhoto ou as veigas dos rios. O interior continuou fiel ao centeio e ao paínço, as verdadeiras culturas de resiliência da "cultura do arado radial". [1]
QUARTA PARTE
Agradeci o contributo, informando que estava a elaborar uma crónica para os meus TRILHOS SERRANOS e a IA, pródiga e sapientemente, aprontou de imediato um texto complementar que eu recebi de mãos abertas. Assim:
“Se me permitir o contributo, preparei uma sugestão de enquadramento histórico ou introdução que poderá utilizar para abrir o capítulo ou artigo onde vai explorar estas curiosidades. Foca-se exatamente nessa dialética da "chegada tardia" e na resistência técnica do interior.
Sugestão de Introdução / Enquadramento Histórico para Artigo
A análise minuciosa dos foros e contratos da Casa de Grijó, no Julgado do Sul, revela muito mais do que meras transações financeiras ou relações de vassalagem senhorial; constitui um espelho fiel da resistência técnica e do isolamento geográfico que caracterizaram as franjas da Serra do Montemuro até meados do século XIX.
A fragmentação extrema dos tributos, que em certos casos reduzia o foro anual a uma insignificância tal como a partilha de "botelhas" (abóboras), ilustra o limite prático da cobrança senhorial num sistema de minifúndio asfixiante.
Mais reveladora ainda é a persistência, nos registos anexos, de pagamentos efetuados em "palha paínça". Este dado etno-histórico valida diretamente a introdução tardia da charrua de aiveca na região. Enquanto o litoral português adotava progressivamente sistemas mecanizados e a cultura intensiva do milho grosso americano, o interior periférico mantinha-se fiel ao arado radial de matriz celta. Trata-se de uma simbiose tecnológica forçada pelo meio: em solos leves, soltos e de encosta, o arado tradicional bastava para o cultivo do centeio e do milho miúdo (paínço). Acharrua de aiveca, capaz de rasgar e inverter os solos fortes e pesados necessários para o maís, esbarrava na resistência de uma geografia agreste e numa economia de subsistência onde tudo — inclusivamente o progresso — teimava em chegar mais tarde”.
QUINTA PARTE
E como nestes manuscritos vemos a palavra MAQUIA, falei no vídeo que fiz com José Ferreira de Almeida (entretanto falecido) mais conhecido por “tio Zé de São Bento) de Vale de Matos, por ter sido moleiro nos moinhos do rio Paiva, integrados na QUINTA DE SÃO BENTO, pertencente à FAMÍLIA AGUILAR, pedi à IA um texto que explorasse o uso dessa medida de capacidade antiga e as suas diferentes aceções semânticas. Isso ajudaria os meus leitores a entenderem melhor as razões por que vou dando vida às “palavras mortas”, vou dando voz a “gente que deixou de falar” e ressuscitando as relações humanas com a terra que foi fonte de rendimento e de trabalho. Leiras que foram produtivas e que estão atualmente vestidas de matos e silvedos.
Pedido feito, resposta pronta na ponta da língua. Assim:
“O Sangue das Palavras Mortas: O que a “Maquia” nos diz sobre nós
Fazer História não é, ao contrário do que o preconceito dita, acumular o pó de papéis velhos ou limitar o engenho à tradução mecânica de caligrafias antigas. Decifrar um manuscrito é um ato de quase-feitiçaria: é chamar à pedra do presente os fantasmas do passado, resgatando as suas vozes, as suas zangas, os seus medos e os seus dinheiros. Ler um documento antigo é, acima de tudo, procurar a pulsação das relações humanas que ficaram presas na tinta seca.
Um exemplo perfeito desta ressurreição conceptual encontra-se numa palavra que o tempo domesticou, mas que os arquivos teimam em manter selvagem: a maquia.
Hoje, se abrirmos um dicionário moderno ou ouvirmos a gíria urbana, a "maquia" é uma abstração. Significa uma percentagem, uma comissão, por vezes o quinhão de um suborno ou, simplesmente, "uma boa quantidade de dinheiro". Tornou-se uma palavra de papel, desligada da terra. No entanto, ao tropeçarmos nela neste manuscrito serrano, a maquia surge-nos com uma força vegetal e granítica. Ela aparece designada não como a mera porção abstrata de um todo, mas a valer por si mesma — como uma medida física, antiga e autónoma.
A maquia era, na verdade, o coração económico da moenda e o termómetro da confiança comunitária. O processo era elementar, mas carregado de tensão social. Quando o lavrador levava o cereal ao moinho, o moleiro não cobrava o seu trabalho em moedas. O pagamento era feito em espécie, retirando-se uma percentagem fixa do grão que entrava. Se um alqueire correspondia a doze quilos de cereal, o moleiro retirava, por exemplo, dois quilos para si.
Mas a maquia era mais do que uma conta de subtrair; era um objeto. Em muitas das nossas serras, a "maquia" ou "maquiço" era uma caixa de madeira com uma volumetria exata e aferida pelas autoridades locais. Era com esse recipiente que o moleiro mergulhava a mão na saca do cliente para extrair o seu sustento.
Desta dualidade nasceu uma das mais ricas mitologias rurais portuguesas, marcada pela eterna desconfiança entre quem moía e quem semeava. A sabedoria popular, sempre mordaz, dizia que "o moleiro tem três maquias: uma para medir, outra para deitar fora e outra para meter na saca". Acusava-se o artífice da água e da pedra de ter "unhas de fome" ou de falsear a madeira da caixa. Dar vida a esta palavra ajuda-nos a compreender que o manuscrito que hoje manuseamos com luvas e pinças foi, outrora, o garante de que ninguém passava fome ou de que ninguém era roubado na partilha do pão.
A prova de que estas "palavras mortas" ainda guardam sangue quente nas veias é que elas recusam morrer de todo. Há poucos dias, gravando uma entrevista em vídeo com um velho moleiro da nossa região, ouvi-o explicar, com a precisão de quem repete um ritual sagrado, exatamente a mesma métrica que os documentos com séculos de idade registam: o alqueire de doze quilos, a retirada dos dois quilos da praxe.
A voz daquele homem, captada pela lente digital, é o eco exato do traço de pena deste manuscrito. Quando cruzamos o papel velho com o vídeo novo, percebemos que a História não é um cemitério de conceitos. É um trilho contínuo. Explicar a maquia aos leitores de hoje é recordar-lhes que a nossa liberdade e a nossa economia atual assentam nos ombros destes homens que mediam a vida ao quilo, à caixa e ao batedor do moinho”.
CONCLUSÃO
Rematando e concluindo, direi que face ao tratamento dado pela IA ao conceito de maquia, tecendo pano de alta qualidade com os fios que lhe forneci, saídos do meu tosco fuso serrano, feito de piorneira ao jeito e à força de navalha, sempre a rodopiar por encostas e ravinas montemuranas, cabe acrescentar aqui a grelha que fui surripiar a um livro antigo - “MANUAL ENCICLOPÉDICO PARA USO DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA”, ed. 1878 - de capas vestidas com pele, sempre prestável ao historiador, ao estudioso e a todo aquele que não se cansa de pensar nem de buscar e arquivar saberes ligados a utensílios idos e à vida dos nossos antepassados.
Digamos que, aproveitando eu o solo desbravado pelo autor de “A Velha Montemurana”, solo leve e solto próprio para produção de centeio, trigo e milho painço com o uso do arado radial celta, cereais, medidos em alqueires, quartas e selamis, meti a charrua de aiveca móvel no solo pesado dos manuscritos e, leiva sobre leiva, alarguei a área de semeadura e de produção de conhecimentos e saberes, ciente de que “nem só de pão vive o homem”.

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NOTA: Os textos em itálico são da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, os demais são de lavra minha. E se ainda por cá anda o autor de “A VELHA MONTEMURANA” e tiver a oportunidade de ler ests crónica feita por mim de parceria com a IA, ciente ficará que a ele a dedico. Se já partiu, fica em sua MEMÓRIA. Eu já carrego às costas 87 anos de vida e sendo ele, seguramente, mais velho do que eu, cá ou lá, merece esta minha referência e reverência.
ADENDA
ADENDA: O Contexto Senhorial da Casa de Grijó e a Geometria das Medidas Antigas
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A Nobreza Esquecida da Casa de Grijó: O manuscrito de 1851 evoca a Casa de Grijó, no antigo Julgado do Sul. Esta correspondia à histórica Casa Grande de Grijó (Morgado de Grijó do Paiva), uma imponente propriedade senhorial com capela que dominava as encostas sobre o vale do rio Paiva, entre as freguesias de Gafanhão e Reriz. Documentos da época confirmam que os herdeiros deste morgadio geriam vastos prazos na região. Joaquim de Almeida atuava como o proprietário deste património feudal.
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O Enquadramento Jurídico das Remissões: A assinatura destes contratos em 1851 e 1860 não é um facto isolado. Inscreve-se no forte movimento de desamortização originado pelas reformas liberais de Mouzinho da Silveira (1832). Estas leis abriram caminho para que os enfiteutas (os lavradores) pudessem finalmente extinguir os velhos vínculos senhoriais, convertendo a obrigação de pagar foros perpétuos em espécie num pagamento único de remissão em dinheiro. Foi o desmoronamento prático do Antigo Regime no Montemuro.
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A Rigorosa Aritmética da Maquia: O registo minucioso feito por Francisco Duarte Cerdeira em 1860 expõe a complexidade do sistema de metrologia tradicional português antes da plena conversão para o sistema métrico decimal (que só se consolidou nas décadas de 1860 e 1870). A equivalência ditada no texto — onde 1 oitavo (ou selami) corresponde a 3 maquias — valida a precisão matemática regional da Beira Alta. Garante que um alqueire de grão continha exatamente 48 maquias, a unidade base que o moleiro retinha como pagamento pelo seu trabalho de moenda.
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Esta adenda acrescenta rigor técnico à crónica. Mostra como os manuscritos locais espelham grandes viragens históricas e jurídicas do país.
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- NOTA: Esclareço que em 1851, já Joaquim de Almeida era proprietário da CASA BRASONADA DE GRIJO, pois a tinha comprado com todos os seus bens móveis e imóveis em 1843 ao velho dono e senhor, «Par do Reino», Rodrigo Monteiro Correia de Vasconcelos Guedes Mourão, residente em Abragão, Penafiel.